[Tópico 2] Filosofia da Linguagem de Ludwig Wittgenstein


[Este texto é parte integrante dos Tópicos de Filosofia, Música e Educação e do livro “Investigações Filosóficas sobre Linguagem, Música e Educação. O que é isso que chamam de Música?” de Estevão Moreira].

Se, por um lado, o objetivo do livro Investigações Filosóficas sobre Linguagem, Música e Educação é levantar questões relacionando estas áreas, convém, de início, definir com clareza – ou o mais próximo possível – o que se quer dizer com isto que estamos nos referindo como “linguagem”. Neste caso a referência é Ludwig Wittgenstein (1889-1951), filósofo alemão de grande importância e influência na produção filosófica do séc. XX e XXI. É curioso notar, porém, que o próprio filósofo em questão não teve uma concepção unificada sobre “linguagem”. Em sua obra, da qual comumente se encontram referências a “dois” Wittgensteins, “linguagem” não se reduz a um objeto único: são, por assim dizer, duas concepções distintas, trabalhadas no decorrer de sua vida.

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O “primeiro” Wittgenstein está preocupado em traçar os limites da linguagem, melhor dizendo, os limites daquilo que se pode pensar e dizer. Compreendem este período, as ideias do Tractatus Logico-philosophicus (1921) (WITTGENSTEIN, 2008), obra que se tornou referência para o positivismo lógico, a saber, aquele que prima sobretudo pelo conhecimento empírico, analítico e não metafísico. Nesta obra, Wittgenstein busca explicar, no “funcionamento da linguagem”, uma linguagem instrumental, i.e., busca desvendar, promovendo uma conciliação entre lógica e filosofia, uma linguagem restrita aos aspectos tautológicos de uma gramática lógica, e nada mais:

O [Tractatus] trata dos problemas filosóficos e mostra, creio eu, que a formulação destes problemas repousa sobre o mau-entendimento da lógica de nossa linguagem. Poder-se-ia talvez apanhar todo o sentido do livro com estas palavras: o que se pode em geral dizer, deve-se dizer claramente; e sobre aquilo que não se pode falar, deve-se calar. (WITTGENSTEIN, 2008, p.131)

Acreditou ter “resolvido de vez o problema” (WITTGESTEIN, 2008, p.132), porém, não atentou para o aspecto fundacional de suas afirmações e para o fato de que já as primeiras premissas do Tractatus (§1 ”O mundo é tudo o que é o caso” e §1.1 “O mundo é a totalidade dos fatos, não das coisas”) aportavam-se em bases metafísicas.

Após o Tractatus, Wittgenstein “abandona” a filosofia, torna-se professor em uma província austríaca e se depara com uma nova situação: ensinar crianças. Gottschalk (2009, p.8-9) destaca que Wittgenstein, como professor de crianças, elaborou com seus alunos – entre outras atividades – um dicionário ortográfico no qual cada aluno era convidado a escrever sobre algum(s) verbetes, com a condição de que fossem palavras que estivessem acostumados. Gottschalk considera ainda que o contexto das políticas públicas em educação – a reforma escolar austríaca dos anos 20 – contribuiu decisivamente para que Wittgenstein passasse a considerar as atividades envolvidas com a linguagem como parte essencial do sentido de uma palavra, uma vez que se primava pela ideia de que o aprendizado não poderia

se limitar a uma mera observação possibilitada pelo aparato sensório do aluno, que iria paulatinamente por associações construindo significados mais complexos a partir de representações dos dados dos sentidos. O conhecimento deveria ser adquirido ativamente a partir dos interesses do educando e de uma forma integradora, interdisciplinar (GOTTSCHALK, 2009, p.12).

Estas seriam algumas evidências, portanto, de que Wittgenstein passava a considerar, na relação linguagem, mundo e pensamento, outra variante: as condições nas quais uma língua é apreendida, e que será o mote de sua “segunda” filosofia. No entanto, esta versão dos feitos de Wittgenstein enquanto professor não se resume a um período tão “feliz” assim. Era considerado um professor muito duro, chegando ao ponto de promover punições severas – e até físicas a seus alunos – o que fez com que sua imagem não fosse estimada entre os camponeses dos vilarejos nos quais ensinou. Wittgenstein abandona o cargo de professor em 1926.

Este episódio de sua vida – acrescidos a outros aspectos de sua excentricidade –, além de ser visto como um afastamento radical do “círculo” de personalidades acadêmicas e discussões filosóficas, é também considerado como um grande momento que culmina na reformulação de seu projeto filosófico e que, posteriormente, deu origem às ideias do “segundo Wittgenstein”, materializadas principalmente na publicação – póstuma – das Investigações Filosóficas (1953). Neste livro, Wittgenstein chama a atenção para o fato de que os limites dos usos da linguagem não estão traçados e que os sentidos só podem emergir no pleno uso da linguagem nas suas situações e contextos específicos.

Recapitulando: ambas concepções de “linguagem” de Wittgenstein se pautam no aspecto da “língua”, porém o primeiro Wittgenstein procura (a) resolver os problema da formulação de problemas filosóficos, analisando um suposto “funcionamento da linguagem” e traçando os limites lógicos para o pensamento e suas expressões – com base na ideia de uma linguagem instrumental e transcendental; já o segundo Wittgenstein atenta para (b) os usos da linguagem e as situações nas quais são empregadas. O primeiro Wittgenstein se preocupa com as verdades ontológicas e com uma semântica baseada no descritivismo; o segundo Wittgenstein passa a se preocupar em como o conhecimento é adquirido, com uma semântica baseada na construção do conhecimento.

A tendência fundacionalista do Tractatus passa à abordagem epistemológica das Investigações, onde, partindo de fatos concretos, Wittgenstein percebe que nas diferentes situações e contextos nos quais a linguagem é empregada não há nenhum limite prévio traçado e isto só fica claro de acordo com a intenção do uso de uma palavra, somente quando a linguagem é posta em ação. Para se referir a esta “constatação” o filósofo descreve os usos da linguagem em seus contextos através do conceito metafórico de jogos de linguagem. São as ideias do segundo Wittgenstein, sobretudo, que nos interessam para o presente trabalho.

Uma pragmática wittgensteiniana

De acordo com Danilo Marcondes, o estudo da linguagem “[se divide] em uma perspectiva filosófica, em sintaxe, semântica e pragmática” e são conceitos oriundos do texto Fundamentos de uma teoria dos signos de Charles W. Morris (1901-1979) (MARCONDES, 2005, p.7). De acordo com Marcondes, a sintaxe e a semântica receberam mais atenção e caracterizam-se, respectivamente, como ciência formal que define regras lingüísticas e perscruta sobre o conteúdo dos signos – e verdades das sentenças em que os signos estão incluídos: “a sintaxe é um pressuposto da semântica” (MARCONDES, 2005, p.8-9). Já a pragmática diz respeito à linguagem em uso, nos diferentes contextos. Se sintaxe e semântica tratam dos aspectos mais abstratos – portanto teorizáveis –, a pragmática trata do nível mais concreto: a análise se dá através da elucidação – observação – e não por meio de uma postulação à revelia dos acontecimentos factuais. Há aqueles que dizem que é possível desenvolver teorias pragmáticas (Austin, Searle) e outros que dizem, em outras palavras, ser impossível (Wittgenstein, Carnap).

Apesar de em nenhum momento das Investigações Filosóficas haver qualquer referência, por parte de Wittgenstein, ao termo pragmática, é comum classificar as suas ideias neste campo da filosofia contemporânea. Isto se dá pelo fato de Wittgenstein demonstrar, nas Investigações, que a linguagem cotidiana não se limita aos aspectos formais lingüísticos de regras “impostas” pela teoria. Na verdade, se existem regras, estas regras estão presentes nos jogos de linguagem e só podem ser apreendidas através da observação e do jogar. Wittgenstein inicia as Investigações Filosóficas criticando uma concepção agostiniana de linguagem – e, portanto uma crítica ao platonismo – de que o aprendizado da língua se dê simplesmente por denominação ostensiva (WITTGENSTEIN, 1975, p.13-14) e refuta, com argumentos baseados na observação da práxis, a possibilidade de uma tal linguagem privada, transcendental, trans-histórica e transcultural. Wittgenstein afirma que as palavras só possuem significação no seu uso, em contextos específicos nos quais indivíduos partilhem das mesmas crenças, valores, pressupostos etc., configurados em diferentes modos de vida – outro importante conceito das Investigações Filosóficas.

Nesta obra, Wittgenstein propõe um encaminhamento diferente do que havia afirmado no Tractatus. Se no Tractatus ele determinou peremptoriamente as condições nas quais se deveria dar o funcionamento da linguagem, nas Investigações a proposta é não teorizar mas sim observar, descrever e elucidar cada caso concretamente. Se for possível estabelecer uma máxima wittgensteiniana, seria esta: “Não pense, mas veja!” (WITTGENSTEIN, 1975, p.42).

Neste espírito de partir “dos fatos”, isto é, de situações práticas, Wittgenstein apresenta, nas IF, uma grande sorte de exemplos, ora para demonstrar aplicações práticas de determinados problemas, ora como metáfora – sobre jogos, por exemplo. Uma situação apresentada no princípio do livro, constantemente retomada em outros momentos, é o exemplo do construtor e seu ajudante. Ambos, em seu ofício, partilham de um jogo de linguagem que os permitem uma compreensão mútua. Se o construtor diz “lajota”, o ajudante compreende e passa-lhe uma lajota, não sendo necessário que o construtor diga a frase “traga-me uma lajota”. Com isto, Wittgenstein quer apontar para o fato de que em outros contextos, mais complexos, existem informações implícitas, porém, que são claras aos participantes de um mesmo contexto. E não somente isso:

Qual é, pois a diferença entre a informação ou afirmação “cinco lajotas” e o comando “cinco lajotas!”? Ora, o papel que o pronunciar dessas palavras desempenha no jogo de linguagem. Mas também o tom com que forem pronunciadas será outro, e a expressão facial, e ainda muitas outras coisas. Mas também podemos pensar que o tom é o mesmo – pois um comando e uma informação podem ser pronunciados em muitos tons diferentes e com muitas expressões faciais diferentes – e que a diferença reside somente no emprego (WITTGENSTEIN, 1975, p.21).

A partir das IF, apesar de tratar dos usos da língua, Wittgenstein admite que a “linguagem” não se limita aos aspectos verbais, tão-somente, mas considera também outros elementos contextuais alheios ao estritamente verbal. E o próximo post será dedicado ao início de uma imersão nesta obra muito importante, publicada postumamente, na segunda metade do sec. XX e que até hoje é de fundamental importância para a Filosofia.

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