Certo ou errado? Sobre o livro que não considera errado falar ‘os livro’


Falo aqui sobre “o livro do momento”. Tamanho é o frisson que não consegui encontrar o título do livro na internet. De qualquer forma, é aquele que apareceu até, entre outros, no programa “Fantástico” — da Rede Globo — e que foi taxado, grosso modo, com o slogan “esse é o livro que não considera errado falar ‘os livro’ “. Tendo a crer que este assunto esteja sendo menos refletido do que falado. Normal, afinal, slogan é para essas coisas. Então, para nós que somos professores, acho fundamental e uma boa oportunidade de pensar a respeito. Penso que seria interessante se examinássemos o próprio livro para ver, de fato, o que ele considera “certo” ou “errado”. Aqui você poderá consultar o capítulo original.

Selecionei os seguintes trechos:

“As classes sociais menos escolarizadas usam uma variante da língua diferente da usada pelas classes sociais que têm mais escolarização. Por uma questão de prestígio — vale lembrar que a língua é um instrumento de poder —, essa segunda variante é chamada de variedade culta ou  norma culta, enquanto a primeira é denominada variedade popular ou norma popular”. (p.12)

Neste primeiro trecho, a autora fala sobre poder e este trecho revela um pouco de sua orientação para linhas de análise de discurso que tratam deste tema — poder — e que me faz lembrar dos franceses Foucault e Bordieu; porém o que me importa aqui, no entanto, é o fato de que a autora faz uma diferenciação entre a linguagem “culta” e a “coloquial” e que nos meus idos tempos de estudante do fundamental eu já estudava. Portanto, até aqui, não há novidade alguma.

Este outro trecho acho mais elucidador para a questão:

“[…] Contudo, é importante saber o seguinte: as duas variantes são eficientes como meios de comunicação. A classe dominante utiliza a norma culta principalmente por ter maior acesso à escolaridade e por seu uso ser um sinal de prestígio. Nesse sentido, é comum que se atribua um preconceito social em relação à variante popular, usada pela maioria dos brasileiros. Esse preconceito não é de razão linguística, mas social. Por isso, um falante deve dominar as diversas variantes porque cada uma tem seu lugar na comunicação cotidiana” (p.12).

O principal aspecto deste segundo parágrafo é o fato de que a autora não determina quem está “certo” ou quem está “errado”, mas explica que um falante deve dominar as diversas variantes, ou seja, dominar as regras dos diferentes contextos que são, por sua vez, determinadas pelas práticas sociais (práxis). Este parágrafo já me é mais familiar e remete à filosofia da linguagem, mais especificamente à pragmática, a saber, a área que estuda a linguagem cotidiana. Na linguagem cotidiana, misturam-se diversos jogos de linguagem (cf. Wittgenstein, Investigações Filosóficas) onde o certo e o errado são refeitos a cada situação, cada contexto, falante, ocasião. Não quero dizer que o “certo” e o “errado”, nestes casos, sejam “relativos” — donde se instauraria um relativismo inócuo  — mas sim, “contextuais”.

Voltemos ao livro.

Apesar desta perspectiva, que não é nova e que remonta aos anos 50, “o grande problema” visto pelos plantonistas (“platonistas”) da linguagem normatizada está precisamente neste parágrafo:

“Você pode estar se perguntando: “Mas eu posso falar ‘os livro?’.”Claro que pode. Mas fique atento porque, dependendo da situação, você corre o risco de ser vítima de preconceito linguístico. Muita gente diz o que se deve e o que não se deve falar e escrever, tomando as regras estabelecidas para a norma culta como padrão de correção de todas as formas linguísticas. O falante, portanto, tem de ser capaz de usar a variante adequada da língua para cada ocasião” (p.15).

Este parágrafo arrepiou os cabelos de muitos editores de noticiários. Porém, esses mesmos noticiários deram pouca ênfase a seguinte frase da autora: “a língua escrita não é o simples registro da fala. Falar é diferente de escrever” (p.11)Na escola aprendemos a escrever e não a falar. Claro! Pois para aprender a falar — as diversas linguagens cotidianas — não precisamos ir à escola, aprendemos sozinhos, imersos em uma prática, ou em uma forma de vida, para relembrar novamente Wittgenstein. Na escola é fundamental que se aprenda a escrever, mas também em quê reside a diferença entre falar e escrever, suas implicações e, principalmente, como isto deve se dar na prática: de uma postura de austeridade lingüística, para uma alteridade linguageira.

Recorramos a exemplos: haveria alguma objeção ao fato de que, no Brasil, alguém que fale “os livro” será perfeitamente entendido? Sem entrar nas questões políticas, quem se comunicou melhor com a massa brasileira? FHC ou Lula? Deste último, lembro-me que certa vez o jornal veiculou o neologismo de Lula “Sífu” — neologismo para o dicionário, mas verbete corrente na boca do povo — com certo repúdio. Com certeza, “não pega bem para o presidente falar estas coisas”. Questões de ética e etiqueta. Porém, com relação à comunicação, qual brasileiro não entendeu? Só os estrangeiros ficaram de fora dessa. (Não se trata de justificativa, mas tautologia). O que quero dizer é que, para o falar, de fato não é necessário que se estabeleçam regras, pois, citando o paradoxo de Wittgenstein, como poderiam ser estabelecidas regras para a linguagem, se esta já está em conformidade com uma regra? (cf. Wittgenstein, IF, § 201).

Voltando ao “famigerado” livro, a autora quer dizer, em suma, que mesmo alguém que fale “os livro” deve saber, por exemplo, que uma prova de vestibular se estabelece a partir dos critérios da “norma culta”. Ademais, alguém que use uma linguagem inadequada para um contexto poderá sim sofrer de preconceito linguístico (expressão que não é nova e pode ser mais conhecida com uma simples busca no google). Tens dúvida? Seja de alguém que, a partir dos critérios da norma culta, fale “errado” em local onde se fala tudo “certo”, ou ao contrário, alguém que fale tudo “certo” em local onde se fala tudo “errado”. Mas a tal “norma culta” — da escrita — está lá no livro, explicadinha, tim-tim-por-tim-tim. Os livro” foi (foram?) na verdade só um “plusamais” (plus-a-mais) para falar sobre a fala e  sobre coisa mais profunda — e “discarada” — ainda, que é o preconceito linguístico.

Pensemos agora em um exemplo ao avesso de alguém que “domine” a norma culta: um professor de música que vá fazer uma pesquisa de campo sobre os pífanos de Bendegó, Canudos-BA, deverá imergir nesta comunidade. Para conseguir compreender os nativos, precisará conhecer os mais variados jogos de linguagem locais — dominar, aos poucos, as regras — através da observação, uma vez que as mesmas não constam nos livros, mas na prática da linguagem daquele povo, construída no decorrer do tempo. Assim poderá também se comunicar melhor, para atingir completa imersão. Por outro lado, para alguém que vá dar aula de música na periferia de São Paulo, “é de bom tom” que conheça a linguagem “dos mano” ou “dos truta“, pois do contrário terá menores chances de compreender o contexto no qual se insere o aluno. Terá assim dificuldades em “ler o mundo [local]” (re-parafraseando Freire: neste caso não é o aluno “lendo o mundo”, mas o professor “lendo o mundo do aluno”), pelo fato de que são outras as regras linguageiras  instauradas pela prática e não pela teoria.

Se este professor compreender e, ainda mais, se for capaz de “falar a mesma língua”, partilhando do mesmo jogo de linguagem do aluno, terá uma outra possibilidade de interagir e até, talvez, ter acolhida. Se conseguir compreender os jogos de linguagem, falar e ser acolhido, abrem-se duas outras possibilidades:

— Este professor poderá aprender com os alunos muitas coisas que, certamente, jamais serão contempladas pelos livros.

— Este professor poderá, também, ensinar.