A musica que respiramos

Destacado


A música é tão presente em nossas vidas, que nem nos damos conta. Poderíamos fazer um paralelo de raciocínio com a ideia de que o ar (mais especificamente, o oxigênio) é tão importante que não nos damos conta de sua presença; somente na sua ausência é que nos damos conta de quão indispensável ele é. Seguindo este pensamento, poderíamos dizer que a ação da música, qual o oxigênio, em nossas vidas ocorre sem que percebamos.
Continuar lendo

Música, Linguagem e Educação: na perspectiva de uma pragmática wittgensteiniana


Resumo: Wittgenstein percebe que, nas diferentes situações e contextos nos quais a linguagem é empregada, não há nenhum limite traçado e este se delineia somente com a linguagem posta em ação. (O próprio conceito de “linguagem” em Wittgenstein não é único). Para se referir a esta “constatação” dos usos contextualizados do que chama de linguagem, o filósofo desenvolve o conceito de jogos de linguagem –fundamental para a “pragmática” wittgensteiniana. Uma preocupação com a educação musical, a partir da linguagem, que atente para tais aspectos de uma pragmática wittgensteiniana, deverá – metodologicamente – levar em consideração que a palavra “música” apresenta tantas concepções e usos quantos diferentes forem os contextos nos quais seja empregada. No entanto, não somente o termo “música” mas todo um léxico empregado nas práticas musicais pode ser passível de uma reflexão crítica.

[Ler mais]

Palavras chave: educação musical, linguagem, wittgenstein.

Crítica à concepção “agostiniana” de linguagem sobre música


A concepção agostiniana de linguagem, segundo Wittgenstein, é aquela que se fundamenta em uma ideia de linguagem que se constitui como autônoma na relação pensamento-mundo, com status de inequívoca, uma vez que seria capaz de se referir e denominar os objetos do mundo. Partindo deste princípio, a concepção agostiniana de linguagem tem como verdade que as significações seriam agregadas às palavras, que possuiriam valores absolutos. Uma linguagem fundamentada na concepção agostiniana toma como referência a crença – acima de qualquer suspeita ou cogitação de contrário – na existência de modelos a priori que seriam necessariamente e “naturalmente” seguidos por todos.

No entanto, a própria concepção agostiniana de linguagem não pode se instaurar sem que haja um treinamento no qual aquele que ensina mostra os objetos em um ensino ostensivo de palavras (WITTGENESTEIN, 1975, p. 15). Isto significa dizer que existe um jogode linguagem que deve ser compreendido por aquele que aprende uma denominação, ou seja, denominar é apontar um objeto associando-o a um referencial (conjunto de sons, sinais etc.), o que quer dizer, por sua vez, que a não compreensão do gesto – de apontar – inviabiliza a nominação, pois o observador poderia simplesmente repetir, sem compreender (DIAS, 2000, p.45). Neste caso, há portanto na prática do modelo agostiniano de linguagem a necessidade de um conhecimento prévio que não é percebido ao se conceber “linguagem” como uma denominação ostensiva.

Se se pensar a questão da denominação ostensiva no campo da educação musical, podemos problematizar situações nas quais o professor de música aponta para um determinado acontecimento musical e denomina-o para o aluno. O problema maior reside no fato de que, ao contrário dos objetos que são táteis e visuais, os sons não são visíveis, de maneira que o “apontar” torna ainda menos evidente o que se quer mostrar – i.e. o “parâmetro” ou característica –, a não ser que aquele que aprende já tenha certa vivência com os critérios da prática que o professor aponta. Sobre os critérios, estes devem ser públicos e partilhados no jogo de linguagem.

A concepção agostiniana que Wittgenstein descreve é aquela que pressupõe, portanto, que o ato de apontar será de antemão compreendido pelo ouvinte, pois parte da ideia de que, se os nomes apenas descrevem o mundo, este mundo existe independente da linguagem (como no CRÁTILO). Premissa que está na base da ideia de que, se algum aluno não é capaz de aprender com aquilo que o professor mostra, este aluno “tem problemas” de alguma ordem: ou não é talentoso, ou é “inferior”, ou “não entende e nunca vai entender” etc.

Porém, a perspectiva de Wittgenstein nos mostra exatamente o oposto: que os jogos de linguagem são parte de uma forma de vida (WITTGENSTEIN, 1975, p. 22) e, desta forma, o que chamamos de linguagem não se trata de algo que está fora da vida, mas é parte dela, isto é, a linguagem não é somente uma descrição do mundo, mas é também parte dele. Assim, na educação musical e na linguagem sobre música de um modo geral, podemos problematizar a concepção agostiniana como aquela que se baseia no princípio de que os conceitos musicais são parte do mundo e independem da abordagem linguageira.

Sejamos um pouco mais insistentes, a fim de fazer compreender com algo mais palpável – literalmente. Pensemos na ideia de “círculo”. Dizer que o círculo é redondo é uma tautologia pois se trata de uma informação verdadeira – pela própria definição de tautologia – porém que é verdadeira para um determinado grupo. No entanto, não são encontrados natureza, o círculo, o triângulo e o quadrado. Assim, um pires tem o formato de um círculo, porém, não é o círculo. Este, por sua vez, é uma criação geométrica que é inferida das formas da natureza e que, na empresa platônica de busca da essência, encontra um exemplar que contemplaria todas as “imagens imperfeitas” do círculo, do triângulo e do quadrado que encontraríamos na natureza.

A crítica de Wittgenstein, portanto, atinge também à concepção platônica de linguagem, pois de acordo com Platão, a linguagem em nada contribui para conhecer o mundo. Mas Platão está preocupado em conhecer as ideias que estão, por sua vez, no mundo das ideias. Isto é, do ponto de vista naturalista, não é possível saber se as palavras estão corretas pois seria preciso primeiramente conhecer esta supra-realidade e, se a linguagem não modifica a essência das ideias – pois refere-se somente às cópias imperfeitas das ideias, o mundo continua a existir independente da linguagem. Melhor dizendo, para Platão, uma vez que são apenas imagens das ideias – as essências residentes no “mundo das ideias” – a linguagem não interfere no conhecimento da realidade. E do ponto de vista do convencionalismo, se as palavras variam de uma comunidade para outra, aí sim é que não será possível conhecer a coisa em si (MARCONDES, 1986).

Voltando portanto ao campo da educação musical, termos como “escala”, “tonalidade”, “intervalos”, “linguagem musical” etc., estão comprometidos com contextos específicos e que na verdade só poderíamos fazer uma descrição mais profunda analisando o uso de cada um dos termos em situações reais. No entanto, para a concepção agostiniana de linguagem o uso não faria diferença, uma vez que a linguagem não teria influência sobre a existência de algo estabelecido como “coisa” do mundo, funcionando tão somente como referente – acima da suspeita agostiniana.

_________________________

DIAS, Maria Clara.  Kant e Wittgenstein: os limites da linguagem.  Rio de Janeiro:  Relume Dumará,  2000.

MARCONDES, Danilo.  A concepção de linguagem no ‘Crátilo’ de Platão.  in: Leopoldianum, Vol. XIII, n° 36 Rio de Janeiro: PUC-Rio,  1986.

WITTGENSTEIN. Investigações Filosóficas. Pensadores. Ed. Abril: São Paulo, 1975.