[Tópico 8] A terapia wittgensteiniana


[Este texto é parte integrante do livro “Investigações Filosóficas sobre Linguagem, Música e Educação. O que é isso que chamam de Música?” de Estevão Moreira].

Na perspectiva da pragmática wittgensteiniana, determinados fragmentos do empírico são incorporados à linguagem cumprindo uma função transcendental, pois, os gestos ostensivos – ou qualquer outra ação significativa – fazem parte da linguagem como elementos de um jogo de linguagem. “Desse modo, dissolve-se o abismo entre signo e objeto empírico, ou entre signo e ação: agimos no interior de jogos de linguagem, seguindo regras que são públicas, e não privadas […]” (GOTTSCHALK, 2010, p. 123).

Considerando que, nas palavras de Wittgenstein, a filosofia não deve “tocar no uso efetivo da linguagem [e que] em último caso, pode apenas descrevê-lo” (WITTGENSTEIN, 1975, p. 60), da mesma forma só temos possibilidade de saber se alguém seguiu uma regra se houver uma ação que evidencie uma concepção, isto é, conhecemos somente os efeitos dos usos da linguagem. Por exemplo: se digo “caneta!” e uma pessoa me entrega uma caneta, posso inferir – somente por causa de sua ação – que esta palavra foi compreendida como um pedido (ou uma ordem, dependendo do caso). E para se ter ainda mais compreensão da concepção de “caneta” pela pessoa que respondeu, será necessário também – em alguma medida – que o contexto no qual se profere a palavra “caneta” também seja averiguado nas suas variantes: o que (“caneta!”), quando (em horário comercial), onde (no balcão do caixa), para quê (para assinar cheque), porque (esqueceu caneta em casa), de quem (cliente), para quem (balconista), como (apontando, exclamando, com pressa…). Todos estes elementos são fundamentais para se compreender o que se quer dizer com “caneta”, no exemplo acima.

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[Tópico 7] O argumento da impossibilidade de uma linguagem privada


[Este texto é parte integrante do livro “Investigações Filosóficas sobre Linguagem, Música e Educação. O que é isso que chamam de Música?” de Estevão Moreira].

Através de especulações acerca dos jogos de linguagem e as formas de vida, Wittgenstein chega à problematização de um terceiro ponto de grande importancia e que contribuiu ainda mais para torná-lo um filósofo de referência: trata-se do argumento da impossibilidade da existência de uma linguagem privada (IF § 243-315), com o qual Wittgenstein desconsidera a possibilidade de uma tal linguagem que não seja compartilhada e pública nos jogos de linguagem. Isto é, para que haja referência a um conceito, este requer critérios e mesmo uma dor alheia – que eu não sinto – pode ser compreendida como tal, pois, apesar de eu não senti-la, conheço o conceito de dor. E não se trata de uma “dor” que é pública, mas um “conceito de dor” que é público e, portanto, possível de ser compartilhado.

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