[Tópico 3] A Obra: Investigações Filosóficas (Wittgenstein)


[Este texto é parte integrante dos tópicos de filosofia, música e educação e do livro “Investigações Filosóficas sobre Linguagem, Música e Educação. O que é isso que chamam de Música?” de Estevão Moreira].

Nas Investigações Filosóficas (1953), Wittgenstein assume uma ideia de linguagem oposta à que tinha delineado em sua obra anterior Tractatus Logico-philosoficus (1921): se no TLP “linguagem” tinha um status de entidade autônoma inequívoca, de caráter normativo, instrumental e lógico, nas IF a “linguagem” é enfocada nos seus mais diferentes usos cotidianos, observando que existem diferentes empregos, em diferentes ações e contextos, com resultantes distintas. Tal mudança na perspectiva faz Wittgenstein concluir que a linguagem dispõe de um conjunto de sinais que assumem sentidos somente nos usos, contextualizados. Deste modo, verifica-se que a própria concepção de “linguagem” em Wittgenstein assume diferentes significados.

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No entanto, o próprio Wittgenstein afirma que as IF são escritos que só podem ser “verdadeiramente compreendidos” se colocados em oposição com o seu “velho modo de pensar” [Tractatus], sendo este um pano de fundo para seus “novos pensamentos” (IF, Introdução). Isto é, apesar de “opostas” as duas obras são complementares e, conforme o próprio autor, só fazem sentido mantendo essa relação de polaridade, mas ao mesmo tempo de contextualização dos pensamentos expressos em ambas.

Wittgenstein desenvolve o conceito de jogos de linguagem, para explicar a sua nova perspectiva, afirmando que, da linguagem, só é possível constatar o que chama de jogos, isto é, sua manifestação concreta nas ações produtoras de sentido. Nos jogos de linguagem seus participantes partilham – entre outros aspectos – das mesmas regras, sentidos, valores e contextos (WITTGENSTEIN, [1953], 1975). Por outro lado, o conceito de jogo de linguagem não trata de uma teoria, uma vez que Wittgenstein não tenta produzir uma normatização abstrata, mas observar o “concreto”, buscando, mais do que definir uma teoria, elucidar o conceito de jogos de linguagem através de exemplos da vida cotidiana. Ele não quer estabelecer o que os lógicos chamaram de “estrutura da linguagem” (WITTGENSTEIN, 1975, p.23), pois percebe que existem, na “linguagem” posta em uso, comportamentos dos mais diversos que uma teoria não seria capaz de abarcar.

§ 132. Queremos estabelecer uma ordem no nosso conhecimento do uso da linguagem: uma ordem para uma finalidade determinada; uma ordem dentre muitas possíveis; não a ordem. Com esta finalidade, salientaremos constantemente diferenças que nossas formas habituais de linguagem facilmente não deixam perceber. Isto poderia dar a aparência de que considerássemos como nossa tarefa reformar a linguagem. Uma tal reforma para determinadas finalidades práticas, o aperfeiçoamento da nossa terminologia para evitar mal-entendidos no uso prático, é bem possível. Mas esses não são os casos com que temos algo a ver. As confusões com as quais nos ocupamos nascem quando a linguagem, por assim dizer, caminha no vazio, não quando trabalha (WITTGENSTEIN, 1975, p. 62).

Por esta razão as Investigações Filosóficas são uma obra farta de exemplos práticos em contextos diversos. A própria metáfora do jogo apresenta uma liberdade na delimitação das possibilidades, se for considerado o fato de que existem jogos dos mais distintos: cartas, adivinhações, bolas chutadas, bolas arremessadas, bolas com a mão ou com o pé etc., guardando entre si certa familiaridade – com maior ou menor distância – que reside no fato de serem todos jogos (MOREIRA, 2009).

A Concepção agostiniana de linguagem

A análise de Wittgenstein sobre as práticas linguageiras se inicia com um questionamento da concepção de uma linguagem com status de autônoma na relação pensamento-mundo, criticando a ideia da crença em na existência de uma linguagem instrumental e referencial que apenas serviria para comunicar inequivocamente através da denominação das coisas, objetos de mundo que seriam preexistentes, anteriores à linguagem. Este paradigma de linguagem é apresentado como a “concepção agostiniana de linguagem” e é precisamente neste ponto que Wittgenstein abre as IF, já no primeiro parágrafo, com o seguinte texto de Santo Agostinho:

Se os adultos nomeassem algum objeto e, ao fazê-lo, se voltassem para ele, eu percebia isto e compreendia que o objeto fora designado pelos sons que eles pronunciavam, pois eles queriam indicá-lo. Mas deduzi isto dos seus gestos, a linguagem natural de todos os povos, e da linguagem que, por meio da mímica e dos jogos com os olhos, por meio dos movimentos dos membros e do som da voz, indica as sensações da alma, quando esta deseja algo, ou se detém, ou recusa ou foge. Assim, aprendi pouco a pouco a compreender quais coisas eram designadas pelas palavras que eu ouvia pronunciar repetidamente nos seus lugares determinados em frases diferentes. E quando habituara minha boca a esses signos, dava expressão aos meus desejos (WITTGENSTEIN, 1975, p.14)

Segundo Wittgenstein, Santo Agostinho descreve um sistema de comunicação, porém que não abarca “tudo aquilo que chamamos de linguagem” (WITTGENSTEIN, 1975, p.14). Nas palavras de Santo Agostinho evidencia-se um tipo de “imagem da essência da linguagem humana” que seria, de acordo com Wittgenstein, a de que as palavras da linguagem denominam objetos. Deste modo, nesta “imagem da linguagem” de Santo Agostinho estariam as raízes da ideia de que cada palavra tem uma significação, de modo que esta significação seria “agregada à palavra”. Esta “imagem da linguagem” de Santo Agostinho, que se baseia na ideia de que as palavras possuem valores absolutos, é questionada por Wittgenstein e o que se segue nas IF a partir de então são questões acerca da linguagem que foram fundamentais para muitos filósofos dos séculos XX e XXI.

Ao criticar a concepção agostiniana de linguagem, Wittgenstein quer chamar a atenção para o fato de que uma teorização como esta – e também como aquela que o primeiro Wittgenstein empreendeu no Tractatus – não seria capaz de explicar “o que é” a linguagem, tampouco o seu funcionamento; ademais, tal concepção tende a afastar definitivamente qualquer possibilidade de compreensão mais profunda da “linguagem” – em sentido lato – pois toma como referência e ponto de partida a ideia da existência de um modelo ideal que deve ser seguido por todos. Wittgenstein propõe que caso se queira chegar próximo a uma compreensão dos fenômenos da linguagem esta deverá ser compreendida não como um modelo a priori, mas sim como algo que independe de conceitos normativos, cujo sentido emerge eminentemente da prática sem se dissociar dela. Isto é, só se pode elucidar situações em que a linguagem é colocada no seu pleno uso e não em regras gerais:

[…] o conceito geral da significação das palavras envolve o funcionamento da linguagem com uma bruma que torna impossível a visão clara. – Dissipa-se a névoa quando estudamos os fenômenos da linguagem em espécies primitivas do seu emprego, nos quais pode-se abranger claramente a finalidade e o funcionamento das palavras”. (WITTGENSTEIN, 1975, p.15)

Wittgenstein chama atenção para o fato de que, na concepção agostiniana de linguagem, ocorre um treinamento onde “quem ensina mostra os objetos”, de modo que não se questiona a significação das palavras uma vez que no aprendizado, de inicio, somos treinados somente a repetir o que nos ensinam. Assim, não há neste caso “elucidação ostensiva” ou “definição”, pois a criança – como na memória de Agostinho – ainda não pode perguntar sobre a denominação. Wittgenstein, portanto, propõe que se chame isto de um “ensino ostensivo de palavras” (WITTGENSTEIN, 1975, p.15). Por outro lado as próprias palavras de Agostinho evidenciam a presença de “gestos” que caracterizam um treinamento, no qual se inclui a apresentação de objetos acompanhada de sons, porém este tipo de associação, palavra-objeto, é “apenas mais uma engrenagem, na complexa rede da qual deriva a compreensão de um termo no curso da linguagem” (DIAS, 2000, p.44). A própria prática de um ensino ostensivo, daquele que simplesmente a denomina sem elucidar os nomes – como se houvesse uma relação indestrutível entre nome e coisa – não se faz possível, senão a partir de uma compreensão prévia de diversos pressupostos que somente são possíveis àqueles que partilham de regras de um mesmo contexto.

Faz parte desta prática da linguagem compreender o gesto de apontar como indicando a direção para a qual se deve olhar, assim como compreender o objeto para o qual se olha como aquele que deve ser nomeado pela palavra pronunciada e, por fim, a palavra como o conjunto de sons cuja função nesse contexto é nomear um objeto. Sem essa compreensão da própria atividade, o ensino ostensivo tornar-se-ia um ritual que o observador poderia repetir, porém não compreender, ou seja, empregar de maneira autônoma (DIAS, 2000, p.45).

Ou seja, mesmo a “denominação ostensiva” de palavras requer um aprendizado gradativo anterior e a existência de um contexto para a sua efetiva realização, de modo que a garantia de aprendizado das palavras estaria no fato de que aquele que aprende incorpora uma habilidade em responder adequadamente ao que se propõe na comunicação. A elucidação do uso que uma definição ostensiva promove só é possível “quando já é claro qual papel a palavra deve desempenhar na linguagem”. Wittgenstein assevera portanto: “Deve-se já saber (ou ser capaz de) algo, para poder perguntar sobre a denominação”. Tais observações demonstram que a relação nome-coisa não é autônoma – conforme acredita uma concepção agostiniana de linguagem – uma vez que neste caso existe a necessidade de um contexto prévio e complexo de significados partilhados sem os quais não seria possível ocorrer a denominação ostensiva.

A concepção referencialista de linguagem de Agostinho será abordada novamente no [Tópico 11], após a delimitação do conceito de jogos de linguagem e seus desdobramentos — que serão abordados nos próximos tópicos –, a partir dos quais serão pensadas em suas implicações para a educação musical.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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