[Tópico 4] O Conceito de Jogos de Linguagem


[Este texto é parte integrante dos Tópicos de Filosofia, Música e Educação e do livro “Investigações Filosóficas sobre Linguagem, Música e Educação. O que é isso que chamam de Música?” de Estevão Moreira].

Após delinear a concepção agostiniana de linguagem Wittgenstein faz uma oposição com o que observa na práxis e constata que esta “imagem de linguagem” de Santo Agostinho não é capaz de abarcar todos os casos, de modo que se trata sim de mais um “jogo de linguagem” em meio a tantos outros. E é precisamente no parágrafo 7 das IF que Wittgenstein apresenta o conceito de jogo de linguagem onde, de antemão, o filósofo apresenta o problema da práxis versus a teoria, constatando uma não-correpondência entre as duas realidades:

§ 7. Na práxis do uso da linguagem, [alguém] enuncia […] palavras, o outro age de acordo com elas; na lição de linguagem, porém, encontrar-se-á este processo: o que aprende denomina os objetos. Isto é, fala a palavra, quando o professor aponta para [o objeto]. – Sim, encontrar-se-á aqui o exercício ainda mais simples: o aluno repete a palavra que o professor pronuncia – ambos processos de linguagem semelhantes. Podemos também imaginar que todo o processo do uso das palavras […] é um daqueles jogos por meio dos quais as crianças aprendem sua língua materna. Chamarei esses jogos de “jogos de linguagem”, e falarei muitas vezes de uma linguagem primitiva como de um jogo de linguagem (WITTGENSTEIN, 1975, p.15).

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Estes jogos de linguagem se caracterizam por terem suas situações específicas que não podem ser abarcadas pela teoria, senão somente pela observação da práxis, isto é, no efetivo uso da linguagem. E esta atenção para com o uso se dará sistematica e metodologicamente através de exemplos do emprego da linguagem nas atividades cotidianas – pedreiros, vendedores, crianças etc – de modo a verificar se a teoria de uma linguagem inequívoca – de aspiração ao universal – condiz com as características das práticas – os particulares. Ou seja, mesmo que as palavras sejam “ensinadas ostensivamente” através da denominação, este aprendizado só se dá através do seu uso. Wittgenstein pergunta por exemplo: como se ensinar “ostensivamente” o significado das palavras “ali” e “isto”? Não há outra maneira de ensiná-la senão com gestos que não são explicativos, mas sim o próprio ato de mostrar, através do uso destas palavras (WITTGENSTEIN, 1975, p.17).

§ 23. […] [Há] inúmeras espécies diferentes de emprego daquilo que chamamos de “signo”, “palavras”, “frases”. E essa pluralidade não é nada fixa, um dado para sempre; mas novos tipos de liguagem, como poderíamos dizer, nascem e outros envelhecem e são esquecidos […]. O termo “jogo de linguagem” deve aqui salientar que o falar da linguagem é uma parte de uma atividade ou de uma forma de vida (grifo nosso). (WITTGENSTEIN, 1975, p.22)

Portanto, mais do que dizer que existem jogos de linguagem, Wittgenstein aponta para a ocorrência de diferentes formas de vida (ou modos de vida) evidenciando a ideia de que a linguagem, além de não se resumir a um mero instrumento, está intimamente relacionada com quem dela se utilize, de modo que há tantos jogos de linguagem quantas formas de vida existirem. Para John Searle, esta perspectiva das IF de Wittgenstein está circunscrita na área de investigação chamada de Background, e que abrange “um conjunto de capacidades e aptidões, simultaneamente biológicas e culturais, que tornam possíveis a nossa linguagem e o nosso comportamento” (SEARLE, 1999, p.92). Tais formas de vida existem em seus contextos específicos em suas variantes temporais e espaciais: cada tempo, localidade, língua, clima, região, profissão, gênero, etc., tem sua forma de vida. O que caracteriza as formas de vida, entre outros aspectos, é a existência de regras que somente os participantes do contexto são conhecedores e que o desempenho de ações levam em consideração tais regras que são, na verdade, implicitas e aprendidas através da observação e da prática com acertos e erros.

O exemplo de comunicação entre um construtor e seu ajudante, sobre o qual Wittgenstein faz algumas interpretações deste processo comunicativo, ilustra como se constitui um jogo de linguagem de uma forma de vida específica. Quando o construtor diz “lajota” o ajudante lhe trás uma lajota e, da mesma forma, se ouvir “cubos”, “colunas” ou “vigas”, atenderá trazendo cubos, colunas e vigas, pois na verdade “[…] aquele que diz “lajota!” quer dizer (meint) realmente: ‘traga-me uma lajota!’. […]” (WITTGENSTEIN, 1975, p.19). O exemplo do construtor (pedreiro) e seu ajudante é retomado por diversas vezes por Wittgenstein para explicar, em suma, que a designação da palavra “lajota” implica em uma ação que não seria simplesmente compreendida por qualquer pessoa alheia a este contexto. O construtor diz, exatamente, a palavra “lajota” e não a frase “traga-me uma lajota”. Uma concepção de linguagem que se paute pelo príncipio de uma gramática lógica não é capaz de contemplar este caso, uma vez que a simples palavra “lajota” não apresenta todos os elementos sintáticos para a disposição da ordem “traga-me uma lajota”. O que Wittgenstein quer chamar a atenção é que neste caso pouco (ou nada) importa uma linguagem normativa que estipule regras, pois a regra faz parte do jogo de linguagem, porém só é partilhada pelos participantes do contexto. A palavra “lajota” portanto não seria, neste contexto da construção, uma simples designação de objeto, mas a própria ordem.

Há ainda mais aspectos importantes: a enunciação está diretamente ligada não somente com o seu contexto, mas também com o falante, participante deste contexto. Pois mesmo dentro do contexto da construção, se a palavra “lajota” designa a ordem “traga-me uma lajota” verifica-se que há efeitos distintos, caso seja dita a palavra “lajota” por outro falante qualquer – que não seja o mestre de obras. Tal cuidado no estudo da “linguagem” encontramos também na teoria dos Atos de Fala de Austin (1962) e no exemplo da análise da frase “está aberta a sessão”. Caso seja pronunciada pelo Juiz a frase “está aberta a sessão” terá uma determinada força que não está dita na frase, isto é uma força ilocucionária, e caso seja dita por qualquer outra pessoa não gozará da mesma força. A credibilidade do falante tem papel preponderante neste caso (apud MARCONDES, 2005).

Voltando a Wittgenstein, o papel do ouvinte é também fundamental: uma pessoa de outro contexto, que não partilhe do mesmo jogo de linguagem e da mesma forma de vida não saberá executar a ação solicitada com a palavra “lajota”; e mesmo a ordem completa “traga-me uma lajota” é passível de ser incompreendida se, por exemplo, o ouvinte não conhecer a língua na qual se pronuncia a ordem: um estrangeiro que ouça diversas vezes a frase “traga-me uma lajota” poderia crer que se trata de uma palavra apenas (WITTGENSTEIN, 1975, p.20).

A diferença entre a informação ou afirmação “cinco lajotas” e o comando “cinco lajotas!” está no “papel que o pronunciar dessas palavras desempenha no jogo de linguagem”. E não somente isto: Wittgenstein chama a atenção para o fato de que o sentido depende também do tom com que forem pronunciadas as palavras, a expressão facial e outras coisas. Por outro lado, “podemos pensar que o tom [e as expressões faciais são os mesmos] e que a diferença reside somente no emprego”. (WITTGENSTEIN, 1975, p.21). Em última análise, a atribuição de significado a uma palavra depende fundamentalmente do seu uso, na prática, possibilitando a análise de todas as variantes possíveis, suas circunstâncias e efeitos.

§ 138. Mas pode a significação de uma palavra que eu compreendo não se ajustar ao sentido da frase que eu compreendo? Ou a significação de uma palavra ao sentido de outra? – Com efeito, se a significação é o uso que fazemos das palavras, então não tem sentido falar de um tal ajustamento. Ora, compreendemos a significação de uma palavra quando a ouvimos ou a pronunciamos; nós a aprendemos de golpe; e o que apreendemos assim é algo realmente diferente do ‘uso’ que se estende no tempo! (WITTGENSTEIN, 1975, p. 62).

Outra metáfora que Wittgenstein se utiliza para desenvolver o conceito de jogo de linguagem é a do jogo de xadrez. Mesmo que se saiba a denominação de uma palavra, isto não significa ainda nunhum lance no jogo de linguagem, da mesma forma; colocar a figura do rei no seu lugar ainda não é um lance no jogo de xadrez (WITTGENSTEIN, 1975, p.35). A função de uma peça no jogo não se elucida somente com a sua apresentação. A figura do xadrez, por exemplo, não pode ser explicada com o seu simples mostrar; tampouco o próprio jogo de xadrez será elucidado mostrando-se uma ou todas as peças no tabuleiro – e da mesma forma para as palavras e para a “linguagem”. As distintas funções das peças somente podem ser aprendidas quando colocadas em uso, isto é, no lance. Para que uma pessoa aprenda a jogar, será necessário observar os movimentos das peças e também o comportamento dos jogadores, que podem dar indícios do que se passa no jogo. Por mais que sejam dadas as regras – ou uma lista das regras em um papel, por exemplo – estas serão aprendidas somente na sua aplicação (WITTGENSTEIN, 1975, p.26). Caso alguém que esteja aprendendo um determinado jogo conheça outros jogos, talvez o aprendizado seja mais fácil, uma vez que, apesar dos jogos não serem iguais – de bolas, cartas, peteca, xadrez etc. –, eles guardam entre si, certos traços de familiaridade, ora mais ora menos distantes. Nos jogos de linguagem “se envolvem e se cruzam as diferentes semelhanças que exitem entre os membros de uma família” (WITTGENSTEIN, 1975, p.43).

Com a metáfora do jogo, Wittgenstein ainda não determina o que seria o “essencial no jogo de linguagem” e o que é comum a todos esses processos, a propósito, é o que ele de fato não quer. E é preciso lembrar aqui que esta tentativa de determinar a essência da linguagem fora concebida pelo primeiro Wittgenstein (Tractatus) acerca da forma geral da proposição e da linguagem, questionada então por ele próprio nas Investigações. Agora, o objetivo de Wittgenstein não está em indicar algo comum a tudo aquilo que se concebe como linguagem; e sim em enfatizar que não há nada em comum, apesar de utilizarmos para todos a mesma palavra, porém salienta que são “aparentados uns com os outros de muitos modos diferentes” com maior ou menor familiaridade (WITTGENSTEIN, 1975, p.42).

Considere, por exemplo, os processos que chamamos de “jogos”. Refiro-me a jogos de tabuleiro, de cartas, de bola, torneios esportivos etc. O que é comum a todos eles? […] , se você os contempla, não verá na verdade algo que fosse comum a todos, mas verá semelhanças, parentescos, e até toda uma série deles. […] Considere, por exemplo, os jogos de tabuleiro, com seus múltiplos parentescos. Agora passe para os jogos de cartas: […] mas muitos traços comuns desaparecem e outros surgem. Se passarmos agora aos jogos de bola, muita coisa comum se conserva, mas muitas se perdem. – São todos ‘recreativos’? Compare o xadrez com o jogo de amarelinha. Ou há em todos um ganhar e um perder, ou uma concorrência entre os jogadores? Pense nas paciências. Nos jogos de bola há um ganhar e um perder; mas se uma criança atira a bola na parede e a apanha outra vez, este traço desapareceu. Veja que papéis desempenham a habilidade e a sorte. E como é diferente a habilidade no xadrez e no tênis. Pense agora nos brinquedos de roda: o elemento de divertimento está presente, mas quantos dos outros traços característicos desapareceram! E assim podemos percorrer muitos, muitos outros grupos de jogos e ver semelhanças surgirem e desaparecerem. E tal é o resultado desta consideração: vemos uma rede complicada de semelhanças, que se envolvem e se cruzam mutuamente. Semelhanças de conjunto e de pormenor (WITTGENSTEIN, 1975, p.42, § 66).

É ainda importante apontar para outro detalhe que esta pluralidade de jogos enseja: não há “O Jogo de Linguagem” – com letra maiúscula – sob o qual se coloque todos os mais diferentes jogos possíveis, em uma retificação do conceito, com status de teoria. A letra minúscula, e o plural são evidências de que Wittgenstein quer reforçar a necessidade de se examinar cada caso de acordo com os seus próprios elementos, se for a intenção chegar a uma compreensão de fato do que se “quer dizer” e também do “com base em quê” de uma asserção. Ao mesmo tempo, é colocar em xeque a ideia de um domínio dos conceitos corretos que assume dimensão de domínio como posse, e também de domínio como lugar.

Esta variedade de jogos, com suas variedade de regras e usos, se refletiria, portanto, na pluralidade de modos de se empregar a linguagem — seja a falada ou aquilo que chamamos de “linguagem musical”, por exemplo — e que não tem limites claros, mas que estão todo tempo se refazendo. Estes “limites da linguagem” serão abordados no [Tópico 5], tema da próxima postagem.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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