[Tópico 5] Os limites da linguagem


[Este texto é parte integrante dos Tópicos de Filosofia, Música e Educação e do livro “Investigações Filosóficas sobre Linguagem, Música e Educação. O que é isso que chamam de Música?” de Estevão Moreira].

Ao falar da linguagem, Wittgenstein se refere à linguagem do cotidiano, pois entende que nesta “linguagem primitiva” encontram-se as condições favoráveis para que a comunicação ocorra e onde, de fato, ela ocorre, à revelia das regras lógico-normativas, gramaticais e sintáticas. O fato de que, ao se referir à linguagem já se emprega a própria linguagem (e não uma “preparatória”), mostra que só se pode produzir algo exterior à linguagem (WITTGENSTEIN, 1975, p.59) e, portanto, para Wittgenstein a filosofia não deveria “tocar no uso efetivo da linguagem; em útlimo caso, só poderia descrevê-lo”. Esta ressalva figura também como autocrítica pois, no Tractatus, Wittgenstein “estipulava” as regras de funcionamento de uma linguagem inequívoca, necessária para se evitar contrasensos lógicos na consideração de problemas filosóficos. Este funcionamento portanto não poderia ser descrito, senão somente os efeitos dos seus usos, os mais diversos. Caso contrário, não conseguiríamos compreender a linguagem, para além de facetas e perspectivas não amplas.

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Uma razão da nossa incompreensão, de acordo com Wittgenstein, reside no fato de que nos falta uma visão panorâmica (Ubersicht) do uso de nossas palavras, que nos permitiria a compreensão de “ver as conexões”. Os jogos de linguagem, por sua vez, não seriam “estudos preparatórios para uma futura regulamentação da linguagem”, mas sim objetos de comparação, que, “através de semelhanças e dissemelhanças, devem lançar luz sobre as relações de nossa linguagem”. (WITTGENSTEIN, 1975, p.61).

E com esta análise da “linguagem”, ou melhor, com seu esforço descritivo, Wittgenstein chega a uma importante conclusão: sobre o que se chama de “linguagem” não é possível estabelecer um modelo normativo que se apresente como regra suprema do qual todo fenômeno correlato deva ser submetido e julgado. Mas, ao contrário, é preciso verificar quais as regras que já existem dentro de cada contexto no qual ocorre o tal fenômeno, para assim elucidar não o seu funcionamento, mas os seus mais diferentes usos.

§ 81. […] Nós, notadamente em filosofia, comparamos frequentemente o uso das palavras com jogos, com cálculos segundos regras fixas, mas não podemos dizer que quem usa a linguagem deva jogar tal jogo. – Se se diz, porém, que nossa expressão linguistica apenas se aproxima de tais cálculos, encontramo-nos à beira de um mal-entendido. Pois pode parecer como se, em lógica, falássemos de uma linguagem ideal. Como se nossa lógica fosse uma lógica, por assim dizer, para o vazio. Ao passo que a lógica não trata da linguagem – ou do pensamento – no sentido em que uma ciência natural trata de um fenômeno natural e no máximo pode-se dizer que construímos linguagens ideais. Mas aqui a palavra “ideal” induziria a erro pois soa como se estas linguagens fossem melhores, mais completas que nossa linguagem cotidiana; e como se fosse necessário um lógico para mostrar finalmente aos homens que aparência deve ter uma frase correta. Tudo isto, porém, pode apenas aparecer em sua verdadeira luz quando se obtiver maior clareza sobre os conceitos de compreender, querer dizer (meinem) e pensar. Pois então se tornará também claro o que pode nos levar (e que me levou) a pensar que quem pronuncia uma frase e lhe dá significação (meint) ou a compreende realiza com isto um cálculo segundo regras determinadas (WITTGENSTEIN, 1975, p. 49).

Desta maneira, Wittgenstein não pretende determinar peremptoriamente o funcionamento essencial no qual se deva basear todos as formas de linguagem, e sequer esgotar a complexidade de sua “natureza”. Mas seu objetivo se volta, principalmente, a mostrar este ilimitado da linguagem e das palavras que só assumem sentido dentro de seus contextos de modo que a práxis da linguagem não obedece a uma ordem, mas possui várias ordens das mais distintas.

Nas Investigações Wittgenstein trabalha contra a ideia de uma mera referencialidade das palavras, chamando a atenção para o fato de que com as mesmas palavras é possível dizer aquilo que não está dito. Deste modo, vai além do que havia dito no início do Tractatus e confirmado sob a forma da conhecida sentença “sobre aquilo que não se pode falar, deve-se calar” (§ 7). Mais do que fatos ou coisas as palavras podem indicar ações, de modo que tais palavras só fazem sentido no próprio ato. Se por um lado estas ações contextualizam a linguagem de modo a evidenciar formas de vida (e pensamento), por outro é importante lembrar que seus modos de pensar – ou se se preferir, visões de mundo – tem implicações direta nos modos de fazer. Nossa visão de mundo é orientadora de nossas ações.

Com esta nova percepção dos fenômenos linguageiros, das mais diversas formas de vida em seus jogos de linguagem específicos, Wittgenstein considera que tais jogos estão a todo momento a se encontrar. Somos participantes dos mais diversos jogos e todos estes ao mesmo tempo, alternando entre este ou aquele jogo, de acordo com as regras dos participantes.

Será que aqui a analogia da linguagem com o jogo não nos será esclarecedora? Podemos muito bem imaginar que pessoas se divertem num campo jogando bola e de tal modo que comecem diferentes jogos existentes, não joguem muitos deles até o fim, atirem a bola entrementes para o alto ao acaso, persigam-se mutuamente por brincadeira, atirando a bola, etc. Então alguém diz: durante todo o tempo aquelas pessoas jogaram um jogo e se comportaram, a cada jogada, segundo determinadas regras (WITTGENSTEIN, 1975, p. 50, §83).

Mas o interlocutor1 de Wittgenstein então objeta: “Mas então o emprego da palavra não está regulamentado; o ‘jogo’ que jogamos com ela não está regulamentado.” Ao que Wittgenstein responde: “[o jogo] não está inteiramente limitado por regras; mas também não há nenhuma regra no tênis que prescreva até que altura é permitido lançar a bola nem com quanta força; mas o tênis é um jogo e também tem regras” (WITTGENSTEIN, 1975, p.44).

§ 69. Como explicaríamos a alguém o que é um jogo? Creio que lhe descreveríamos jogos, e poderíamos acrescentar à descrição: “isto e outras coisas semelhantes chamamos de ‘jogos’ ”. E nós próprios sabemos mais? Será que apenas a outrem não podemos dizer exatamente o que é um jogo? Mas isto não é ignorância. Não conhecemos os limites, porque nenhum está traçado. Como disse, podemos – para uma finalidade particular – traçar um limite. É somente a partir daí que tornamos o conceito útil? De forma alguma! A não ser para esta finalidade particular. Tampoucoo tornaria útil a medida de comprimento “um passo” aquele que desce a definição: um passo = 75 cm. E se você me disser: “Mas antes não havia nenhuma medida de comprimento exata”, retrucarei: “Muito bem, então era uma medida inexata”. – Se bem que você ainda me deva a definição de exatidão (WITTGENSTEIN, 1975, p. 44).

Os limites da linguagem portanto, que antes haviam sido apresentados por Wittgenstein em sua visão normativa do Tractatus Logico-philosoficus, são, na verdade, estabelecidos de acordo com cada situação. O conceito de jogo, enquanto comparação, atende, portanto, à preocupação de não se estabelecer uma estrutura, mas de mostrar que tal estrutura não existe fixamente, apesar das possíveis semelhanças de familiaridade. Além disso, Wittgenstein assume a ideia de que a lógica normativa, como mais um jogo de linguagem, não é melhor que nenhuma outra forma de comunicação, a não ser nas próprias situações em que ela é a forma adequada ao contexto, para a mediação com o mundo. Faremos um aprofundamento nesta crítica, no próximo Tópico.

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1No decorrer das Investigações Filosóficas, Wittgenstein frequentemente cria diálogos que mostram outro interlocutor questionador de suas afirmações. Este personagem poderia ser compreendido como um representante do positivismo-lógico ou talvez até mesmo o primeiro Wittgenstein do Tractatus Logico-philosophicus.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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