[Tópico 6] Crítica [wittgensteiniana] a uma gramática lógica normativa


[Este texto é parte integrante dos Tópicos de Filosofia, Música e Educação e do livro “Investigações Filosóficas sobre Linguagem, Música e Educação. O que é isso que chamam de Música?” de Estevão Moreira].

Ao delinear o seu conceito de jogos de linguagem, Wittgenstein está constantando – e conduzindo-nos paulatinamente para um aprofundamento de suas formulações – que cai por terra a crença de que a lógica é a principal saída para resolver os problemas do “mau emprego” da linguagem na filosofia (tese defendida no Tractatus), pois percebe que cada jogo de linguagem é o ideal para cada situação em seus contextos particulares (conclusão das Investigações). Já não há mais o “errado” senão em seu próprio contexto com os seus próprios critérios que são públicos, isto é, partilhados por participantes deste contexto, ou seja, o errado está em não seguir uma regra que não é privada (e que Wittgenstein desenvolve com mais profundidade no argumento da impossibilidade de uma linguagem privada, que trataremos no próximo tópico). E, talvez o mais importante, uma regra, só saberemos se ela está sendo seguida corretamente ou não a partir do conhecimento dos consequências do uso da linguagem, portanto, a partir do conhecimento dos seus efeitos. Alguém que ouça “tijolo”, no contexto específico, saberá o que significa a partir da reação que depreender como reflexo (passar o tijolo, correr, parar, não fazer nada etc.) e também, da resposta que se obter deste reflexo (aprovação tácita ou repreensão explícita).

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Mas, para o positivismo lógico, o conceito de jogo de linguagem, devido à sua “imprecisão”, ainda seria problemático, justamente por não estar “claramente” definido. A elucidação portanto é colocada em xeque pelo alter-ego de Wittgenstein, que propõe agora a seguinte questão: (§87) “como uma elucidação ajuda-me a compreender, se ela não for a última? Então a elucidação nunca se completa; não compreendo, nunca compreenderei o que ele quer dizer!”. O que o interlocutor quer saber é, como uma elucidação é possível se ela não é capaz de definir até o seu último elemento – que seria somente mostravel, enquanto fato. Em exemplo, grosso modo, seria a questão: o que é Educação Musical? Na perspectiva do positivismo lógico, teríamos que buscar os elementos constituintes de cada conceito “Educação” e “Musical”. A acepção geral seria desmembrada em uma cadeia ascendente de conceitos até chegar, no fim – ou melhor, no início –, a um fato, não metafísico, informação “segura” na método do positivismo lógico.

Mas ao contrário, Wittgenstein responde: “É como se uma elucidação pairasse no ar, se não houvesse uma outra que a apoiasse. Enquanto uma elucidação pode repousar sobre uma outra, mas nenhuma precisa da outra, – a menos que nós delas necessitemos a fim de evitar um mal-entendido”. O que Wittgenstein quer dizer é, em outras palavras, que não precisamos saber dos mínimos detalhes para desempenhar uma ação. Um exemplo metafórico que poderíamos dar, a partir de nossa leitura de Wittgenstein, é que não importa – e não é necessário – que o ajudante do pedreiro (do exemplo já dado acima) estabeleça uma “ontologia do tijolo”, isto é, a sua essência, ou ainda, de maneira menos teórica, que ele saiba todo o processo de fabricação do tijolo, sua constituição, o tempo de cozimento etc.: para o ajudante desempenhar a sua ação, basta saber que “tijolo” representa uma ordem para compreender claramente o que se quer dizer. A constatação desta compreensão está no fato de que ele age corretamente de acordo com a situação da construção. Outro exemplo que poderíamos citar, do próprio Wittgenstein, é o de como podemos nos referir a uma vassoura:

Se digo: “Minha vassoura está no canto”, isto é propriamente uma asserção sobre o cabo da vassoura e a escova da vassoura? Poder-se-ia em todo o caso substituir a asserção por uma que indicasse a posição do cabo e a da escova. E essa aserção é como que uma forma mais analisada da primeira. – Mas por que chamo-a de “mais analisada”? – Ora, se a vassoura se encontra lá, isto não significa pois que o cabo e a escova devem estar lá e numa posição determinada, um em relação ao outro; e isto estava anteriormente como que oculto no sentido da frase, e na frase anallisada isto está pronunciado. Portanto, aquele que diz que a vassoura está no canto, quer dizer realmente: o cabo e a escova estão lá, e o cabo está enfiado na escova? – Se perguntarmos a alguém se pensa isso, responderia certamente que não pensara especialmente no cabo de vassoura ou na escova. E esta seria a resposta certa, pois ele não queria falar especialmente nem do cabo de vassoura nem da escova. Imagine que você diga a alguém em vez de “Traga-me uma vassoura!” – “Traga-me o cabo de vassoura e a escova que está enfiada nele!” – A resposta a isto não é: “Quer a vassoura? E por que você exprime isso de maneira tão estranha?” – Ele compreenderá melhor a frase mais analisada? – Essa frase, poder-se-ia dizer, produz o mesmo efeito que a habitual, mas por um caminho incômodo […] (WITTGENSTEIN, 1975, p. 40-41)

Não satisfeito, mais adiante o interlocutor insiste: […] “Mas a elucidação não é inexata?”, e Wittgenstein responde: Mas compreendamos apenas o que significa “inexato”!

Ora, “inexato” não significa “inútil”. E consideremos aquilo que, em oposição a esta elucidação, chamamos de elucidação “exata”! Talvez a delimitação de um distrito por meio de um traço de giz? Mas percebemos imediatamente que o traço tem uma largura. Exato seria, pois, um limite de cor. Mas te esta exatidão ainda uma função? Não se esvazia? E ainda não determinamos o que seria considerado como ultrapassagem desse limite rígido; como e com quais instrumentos se deve estabelecê-la. E assim por diante […]. “Inexato” é propriamente uma repreensão e “exato”, um elogio. E isto significa: o inexato não alcança seu objetivo tão perfeitamente como o mais exato. Isto depende daquilo que chamamos de “objetivo”. É mais inexato se eu não indicar a distância que nos separa do sol até exatamente 1 m? E se não indicar ao marceneiro a largura da mesa até 0,001 mm? (WITTGENSTEIN, 1975, p. 52-53)

Com relação à vassoura e à exatidão, Wittgenstein está a todo tempo querendo dizer que tanto é possível uma comunicação simples como a sua forma analisada (da vassoura, por exemplo), com maior ou menor exatidão. Tanto faz, no sentido em que tanto uma como outra atendem a metas específicas, e se qualquer uma das maneiras – a simplificada ou a “forma analisada” – forem aplicadas fora de seus contextos encontrarão problemas frente à comunidade, i.e., o conjunto de participantes que tem em comum as mesmas regras, pressupostos e práticas. Wittgenstein diz que algumas vezes tendemos facilmente a pensar que a “forma analisada” da vassoura (“cabo de vassoura e a escova enfiada nele”) é mais completa e fundamental, mostrando o que se quer dizer com a outra (“vassoura”). Wittgenstein propõe a seguinte reflexão:

Pensamos algo como: quem conhece apenas a forma não analisada priva-se da análise; mas quem conhece a forma analisada, possui tudo. – Mas não posso dizer que um aspecto da coisa escapa tanto a este como àquele?

Para a compreensão do que se trata nesta passagem – as formas analisadas de uma proposição – é fundamental entender como se configura uma análise proposicional enquanto método e que está na base do pensamento do primeiro Wittgenstein. Gottlob Frege (1848-1925) e Bertrand Russel (1872-1970) são os pensadores referenciais de Wittgenstein. De acordo com Hintikka & Hintikka a posição de Wittgenstein está fundada no “princípio de composicionabilidade [de Frege]” e nos “objetos de familiaridade [de Russel]”. O princípio de composicionabilidade determina que os significados das partes componentes de uma proposição – em suma, do signo simples que ela contém – determinam cabalmente seu significado; já os “objetos de familiaridade” são aqueles que são familiares a nós, no sentido de que não estão em uma esfera metafísica e podem ser, portanto, mostrados e, por sua vez, ditos (premissa do Tractatus). (HINTIKKA, J; HINTIKKA, M, 1994, p. 86).

O que queremos demonstrar agora tem relação com a metodologia decomposicional, que consiste em buscar as menores partes constituintes de uma proposição a fim de buscar a interpretação mais inequívoca possível e verificar possíveis erros de formulação que poderiam invalidar uma sentença completa, e as últimas partes simples, decompostas do todo, devem ser objetos de familiaridade, isto é, podem ser mostrados. Um exemplo corriqueiro da análise decomposicional, que está nas bases dos estudos de filosofia análitica, nos é dado a seguir nas palavras de Roger Scruton:

Consideremos a sentença “o Rei da França é calvo”. Para que isso seja verdade, deve existir um rei da França e ele deve ser calvo. Ademais, para apreender o sentido distintivo da palavra “o”, devemos acrescentar que só existe um rei da França. As condições que formam a sentença verdadeira conferem-lhe o significado; consequentemente, podemos dizer que “o Rei da França é calvo” eqüivale à conjunção de três proposições: “existe um rei da França; tudo que é rei da França é calvo; e só existe um rei da França”. (Mais formalmente – existe um x tal que x é um rei da França e x é calvo, e, para todo y, se y é um rei da França, y é idêntico a x.) (SCRUTON, 2002, p. 269).

Assim, a análise proposional acima permitiria verificar cada formulação simples na busca de inconsistências. A garantia de que uma proposição “molecular” seja portadora de sentido, está na condição de que suas partes “atômicas” sejam tautologias, isto é, verdadeiras. Isto se dá pelo fato de que as tautologias devem ser premissas verdadeiras , por definição. Dizer por exemplo que o círculo é redondo é uma tautologia, pois não há possibilidades, no espaço lógico (V ou F), de existir um círculo quadrado. Portanto, a tautologia é um conhecimento que, apesar de se apresentar como um conhecimento que não tem saída, garante – ao positivismo lógico – o exame e a prova de uma proposição. O problema da proposição o Rei da França é calvo, por exemplo, reside no fato de que o regime da França não é uma monarquia, ou seja, esta premissa não é tautológica, verdadeira, mas sim falsa, fazendo com que toda a proposição se torne nem verdadeira, nem falsa, mas um contrasenso.

Nas Investigações, portanto, Wittgenstein quer apontar para outro aspecto. A análise proposicional que busca tautologias pode ser muito útil no exame de contrasensos lógicos. Porém, seria esta a melhor forma de análise para toda e qualquer formulação linguística da vida cotidiana, isto é, fora do espaço lógico, do par V/F? Wittgenstein quer mostrar que não necessariamente, pois há situações compostas de elementos “secundários” dos quais sua condição de verdade ou falsidade não modificariam o sentido de uma proposição.

[…] Se digo “N está morto”, talvez com o significado do nome “N” possa se dar o seguinte: acredito que tenha vivido um homem que (1) vi em tal e tal lugar que (2) tinha tal e tal aparência (fotos), que (3) fez isto e aquilo, e que (4) no mundo civil levava o nome de “N”. Indagado sobre o que entendo por “N” enumeraria tudo isto, ou uma parte, e diferentes coisas em diferentes ocasiões. Minha definição de “N” seria, por exemplo: “o homem a quem todas estas coisas correspondem”. – Mas, e se alguma coisa se revelasse como falsa! – Estarei disposto a declarar que a frase “N está morto” é falsa, mesmo se apenas alguma coisa que me pareça de secundária importância se revele como falsa? Onde, porém, situar os limites do secundário? (WITTGENSTEIN, 1975, p.48).

O que Wittgenstein quer demostrar é que há casos e casos onde se pode/deve aplicar o método da redução aos simples (unidades atômicas) de uma proposição que é complexa (unidade molecular). Entretanto, Wittgentein aponta também para o fato de que é necessário relacionar fundamentalmente uma proposição com o seu contexto e uso: um contexto onde a lógica se faz necessária faz sentido, porém, noutros, buscar uma coerência da práxis com a lógica é um contrasenso. (Lembremos que o que estamos concebendo como lógica é aquela do positivismo lógico). Estipular o procedimento do positivismo lógico como padrão, bem como colocar todo e qualquer enunciado sob o jugo da máxima – slogan segundo Scruton – “o significado de uma sentença é seu método de verificação” (SCRUTON, 2002, p. 274) seria o que na retórica clássica é chamado de “petição de princípio”, isto é, crer que o falante partilhe da mesma premissa e, portanto, dos mesmos critérios.

Com estes exemplos Wittgenstein está dando ênsfase ao fato de que e estabelecimento dos “limites da linguagem” é comprometido diretamente com o seu uso em cada situação extremamente específica, com objetivos que se pretende alcançar e com a precisão necessaria a cada contexto. Isto permite, por sua vez, colocar a própria normatividade da lógica em questão, considerando que ela não passa de mais um jogo de linguagem em meio a tantos outros.

É de fundamental importância apresentar as bases do positivismo lógico, ainda que de forma muito suscinta, para se ter uma melhor compreensão de onde parte Wittgenstein e onde quer chegar, ou ainda, sobre onde não quer chegar. O positivismo lógico por si é material extremamente denso e sobre ele há muito a se pesquisar e dizer. Somente o Tractatus Logico-philosoficus já seria um material para ser abordado profundamente. Mas não é objeto desta pesquisa, configurando-se em um assunto que não pretendemos esgotar – deixo novamente claro à guiza de protocolo.

O que pretendo fazer notar, aos professores de música, é que o método wittgensteiniano, de partir dos fatos, tem as suas bases no próprio positivismo lógico que as Investigações Filosóficas busca refutar. Porém o que Wittgenstein está a refutar não é necessariamente o método do positivismo lógico, mas sim uma teleologia metafísica que parte da ideia/crença da existência de um modelo ideal e teórico sob o qual deva se submeter a linguagem. Ao mesmo tempo, ao implodir este pressuposto, Wittgenstein apresenta uma nova perspectiva da linguagem que permite reconsiderar as questões éticas que são inerentes a cada forma de vida particular. Mais do que isso, mostra que nossas concepções estão diretamente ligadas à nossa forma de vida.

Wittgenstein compartilha com os fenomenologistas o sentido de que há um mistério nas coisas humanas que não será revelado pela investigação científica. Este mistério é dissipado não pela explicação, mas pela cuidadosa descrição filosófica do “dado”. A diferença é que, para Wittgenstein, o que é “dado” não é o conteúdo da experiência imeditata, mas a forma de vida a qual torna a experiência possível (SCRUTON, 2002, p. 279).

E se as percepções são produto não do que é “dado”, mas da maneira que são recebidos pelas diferentes formas de vida, a “linguagem” torna-se evidencia sensível deste processo que permite constatar as diferentes concepções nas diferentes ações. E considerando a diferença entre as mais diversas formas de vida, a “linguagem” só se faz compreensível àqueles indivíduos que compartilham dos mesmos critérios, que por sua vez trasncendem à primeira pessoa, i.e., é fundamental o papel da 3ª pessoa na partilha do jogo de linguagem.

A destruição da ilusão da primeira pessoa tem duas consequências. Em primeiro lugar, não podemos iniciar nossas investigações a partir do caso da primeira pessoa e pensar que ela nos proporciona um paradigma de certeza. Pois, considerada isoladamente, ela nada nos proporciona. Em segundo lugar, embora a distinção entre ser e parecer não exista para mim no momento em que contemplo minhas próprias sensações, isso só ocorre porque falo uma linguagem pública que determina essa propriedade peculiar do conhecimento da primeira pessoa. O colapso do ser e parecer é um caso “degenerado”. Assim sendo, posso saber que, se esse colapso é possível, é porque há outras pessoas no mundo além de mim e porque tenho em comum com elas uma natureza e uma forma de vida. De fato, habito um mundo objetivo em que as coisas são ou podem ser diferentes do que parecem. Desse modo, de maneira surpreendente, o argumento da Dedução Transcendental de Kant acaba fundamentado. A precondição do autoconhecimento (da Unidade Transcendental da Apercepção) é, afinal de contas, o conhecimento dos outros e do mundo objetivo que os contém (SCRUTON, 2002, 279).

E neste ponto do desenvolvimento das Investigações Filosóficas, chegamos ao importante argumento de Wittgenstein acerca da linguagem, a saber, sobre a impossibilidade de se estabelecer uma linguagem privada, objeto do próximo tópico.

Pontos para reflexão:

1) A partir dos tópicos já apresentados, quais seriam as implicações das concepções de “linguagem” para a ideia de “linguagem musical”?

2) A palavra “música”, dependendo do jogo de linguagem, pode ter diferentes sentidos. Partindo deste pressuposto, na perspectiva de sua prática — professor, músico, psicólogo, filósofo, leigo etc. — quais poderiam ser os desdobramentos no modo de agir?

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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