[Tópico 1] Música: problema ontológico ou de linguagem?


[Este texto é parte integrante dos Tópicos de Filosofia, Música e Educação e do livro “Investigações Filosóficas sobre Linguagem, Música e Educação. O que é isso que chamam de Música?” de Estevão Moreira].

Nosso ponto de partida poderia se dar na questão: “o que é música?”. Porém, por mais estranho que possa parecer, não nos interessa a resposta para tal pergunta. O que nos chama a atenção, já de início, é o fato de que a própria pergunta promove um direcionamento da resposta, tendo como paradigma de compreensão a busca do Ser. Tem como base, portanto, a ideia de uma essência à qual se possa referir, a respeito de alguma “coisa” que se aproxime de uma categoria tal ou tal – senão a própria categoria em si mesma – e que está implícita nesta formulação em forma de pergunta. Por outro lado, se reformularmos tal questão, teríamos, por exemplo, na pergunta “o que é isso que chamam de música?” a implicação de outro paradigma de consideração do objeto “música”, partindo do princípio de que possa haver diferentes concepções do que vem a ser “música”, ou – mais além – não necessariamente/tão-somente concepções, mas usos distintos do termo “música”.

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Ambas as questões (“o que é….” e “o que é isso que chamam….”) – com suas matizes e degradés de aplicabilidade – são de cunho eminentemente filosófico. No entanto, é importante localizarmos historicamente, no pensamento filosófico do ocidente – pensamento não como entidade, mas como atividade humana – em que “sentido” estamos buscando o(s) sentido(s) da palavra música, considerando a “natureza” das questões propostas. Tal abordagem histórica pode nos auxiliar na compreensão das diferentes tradições filosóficas do ocidente, possibilitando uma percepção dos contrastes entre os diferentes modos de pensar e, portanto, dos modos de fazer do homem em suas diversas práticas de “análise”, julgamento e explicação do mundo – especificamente as que se originaram e se desenvolveram a partir do pensamento e da cosmovisão grega – a fim de que se possa compreender as diferenças paradigmáticas fundamentais do olhar – e, por que não, dos ouvidos – e do pensamento filosófico ocidental de cada período. Michel Dummett, filósofo analítico, divide a tradição filosófica em três grandes períodos:

O primeiro, que vai da filosofia antiga (séc. VII a.C.) até o final do pensamento medieval (séc. XIV), é marcado pelo interesse central pela ontologia, ou seja, pela questão sobre o Ser, sobre no que consiste a realidade, qual sua natureza última, sua essência. O segundo caracteriza-se por uma ruptura radical com o primeiro e marca o surgimento da filosofia moderna (séc. XVI-XVII), tendo como questão central a epistemologia, a investigação sobre o conhecimento. A resposta à questão sobre o Ser depende, segundo esta nova visão, da resposta sobre algo mais fundamental: o conhecimento do Ser, a natureza desse conhecimento e sua possibilidade. O terceiro período marca a ruptura, por sua vez, da filosofia contemporânea (final do séc. XIX – início do séc. XX) com a filosofia moderna. Essa nova ruptura introduz agora a questão lógico-linguística, ou seja, o conhecimento não pode ser entendido independentemente de sua formulação e expressão em uma linguagem. A questão primordial passa a ser assim a análise da linguagem, da qual dependerá todo o desenvolvimento posterior da filosofia (apud MARCONDES, 2005, p.9-10).

Isto posto, surge aqui um ponto importante que deve ser assumido – um dever-ser que não é teleológico, mas sim, metodológico –, a saber: se desejarmos realizar um aprofundamento destas questões filosóficas a respeito da música, há que se levar em conta as observações já levantadas pela filosofia contemporânea (sec. XX e XXI), sem as quais corremos o risco de incorrer em anacronismo. Portanto, na filosofia do ocidente, se o problema do Ser (ontológico) passa pelo problema do Conhecer (cognitivo), estes passam necessariamente por uma expressão e referencia na Linguagem (lingüístico) .

Isto se explica no fato de que as concepções fundamentais, tidas como alicerce para a formulação de problemas filosóficos até a filosofia moderna, remetiam a Platão, para quem as palavras “em nada contribuem para o conhecimento do real em sua essência e, consequentemente, nem para o ensinamento deste conhecimento” (MARCONDES, 1986, p.83). De acordo com Marcondes, Platão conclui, no diálogo CRÁTILO, que não haveria a possibilidade de se conhecer o real através das palavras, pois estas seriam apenas imagens deste real, de modo que, antes de saber se os nomes são corretos ou não, é preciso conhecer a realidade das coisas representadas por estes nomes. Por outro lado, se as palavras são fruto de convenções, em nada contribuiriam para o conhecimento da coisa em si, uma vez que são apenas representações da coisa. Estas representações podem, por sua vez, variar de uma língua para outra (ex.: chien, cane, perro, hund, dog ou cachorro).

De acordo com Marcondes (1986), a conclusão aporética do CRÁTILO influenciou fortemente toda uma longa tradição de tratamento da temática da linguagem na filosofia.

[esta tradição] se encontra no DE MAGISTRO de Sto. Agostinho e dá lugar a um intervalo de valorização da linguagem no período medieval [na escolástica de Tomás de Aquino e também com G. Ockham] por influência da lógica aristotélica, para ser retomada entretanto na Filosofia Moderna por Descartes e os racionalistas, bem como pelos empiristas, vindo até o advento, no final do séc. XIX, da Filosofia Analítica, o que marca seu encerramento (MARCONDES, 1986, 85).

Aristóteles, por sua vez, desenvolvera uma concepção que leva a linguagem fortemente em consideração – vide as formulações dos silogismos lógicos, sobretudo os de indução e dedução – porém, que só veio a ser desenvolvida na escolástica via Tomás de Aquino, conhecida por intermédio dos árabes, nos fins da “idade média”. No entanto, considerando que o poder e a credibilidade da igreja estavam em franco declínio, pouco efeito tiveram, como nos mostra Roger Scruton:

O triunfo do Tomismo foi, contudo, de curta duração. Seu primeiro inimigo foi o humanismo no início da renascença. Este fato foi acompanhado também por revoluções nas práticas educacionais as quais buscavam tomar a autoridade intelectual dos eclesiásticos e transferi-la às mãos dos homens literários; e também pela gradual ascendência de um espírito científico inquisitivo e hostil à pronta recepção do dogma teológico (SCRUTON, 2002, p.21)1.

1The triumph of Thomism was, however, short-lived. Its first serious enemy was the humanism of the early renaissance. This was accompanied by revolutions in the practice of education which tended to take intellectual authority from ecclesiastics and vest it in the hands of courtiers and literary men; and also by the gradual ascendancy of a spirit of scientific enquiry hostile to the ready reception of theological dogma (Scruton, 2002, p.21).

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A ênfase nas questões inerentes à linguagem toma grandes proporções e importância somente nos finais do sec. XIX, com o advento da filosofia analítica a partir de Frege, Russel e Wittgenstein. Estes são alguns nomes, dentre outros, de importantes filósofos que tiveram forte influência em muitas ideias do sec. XX e XXI. No presente trabalho, longe de querer esgotar o assunto referente à filosofia da linguagem, da filosofia analítica e da pragmática, escolhemos um filósofo que se mostra como um interessante referencial, por ter sido um dos alicerces do positivismo lógico, dos limites da linguagem e também da pragmática, dos horizontes da linguagem. Este filósofo, aparentemente contraditório, é Ludwig Wittgenstein, tema da nossa próxima postagem.

 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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