Wittgenstein e pesquisa em Música e Educação no Brasil


Ao trazermos as reflexões de Wittgenstein para o campo da educação musical, espero poder contribuir com uma abordagem que até então não encontrada em pesquisas no campo da educação musical, no Brasil. Para isto foram tomadas como principal referência as produções das duas principais associações brasileiras de pesquisa, a saber: os Anais de Encontros e Congressos da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Música (ANPPOM) e os Anais e Revistas da Associação Brasileira de educação musical (ABEM). Considerando, no entanto, que tal corpus é por demais extenso a uma análise mais aprofundada, por isso foram feitas buscas de alusões à Wittgenstein, verificando em que ocasiões sua obra é utilizada como referencial, ou somente citada. Limitando ainda mais este corpus, adotou-se somente o material disponível na Internet, considerando a exequibilidade desta busca panorâmica, possibilitada pelas ferramentas de navegação e buscas textuais que permitem localizar palavras com muita rapidez. Quando as menções à Wittgenstein foram encontradas, estas foram contextualizadas dentro dos textos para que se pudesse ter a compreensão dos empregos das ideias de Wittgenstein, se estas figuravam como referencial teórico ou apenas citação complementar – para ficar em dois pólos.

Apesar de estas duas instituições, ANPPOM e ABEM, representarem uma amostragem significativa das pesquisas brasileiras em música e educação musical, outros periódicos – relacionados com música – também foram excepcionalmente incluídos quando detectadas ocorrências de perspectivas e abordagens que se valessem das ideias de Wittgenstein. Por outro lado, o objetivo do presente trabalho não é o de fazer um levantamento exaustivo e descritivo das obras no campo da Educação Musical que citam Wittgenstein, ademais, pelo fato de que este levantamento apontou justamente para a quase ausência deste filósofo nas pesquisas em educação musical. No entanto, em outras pesquisas no campo da teoria musical, composição, filosofia da música e musicoterapia, o nome de Wittgenstein é mais conhecido e eventualmente citado. A seguir, são elencadas algumas das pesquisas encontradass, com uma breve contextualização de cada trabalho.

Dos Anais da ANPPOM, destacam-se dois artigos. No artigo “Algumas considerações acerca da especificidade do Discurso Estético (musical)”, Cesar A. Sponton versa sobre a questão da experiência estética, partindo do princípio de que “sobre os problemas de estética musical do século XX […] grande parte do que é dito tem sempre como pressuposto um aporte psicológico” (SPONTON, 1999, p.1). O artigo de Sponton é focado na questão da linguagem em estética, e se vale centralmente das ideias de Wittgenstein para fazer uma crítica aos pressupostos de um “psicologismo” das questões estéticas a partir das ideias de Wittgenstein. No outro artigo encontrado nos Anais da ANPPOM, “A Condição Pós-Moderna e a obra Sambado, de Rodolfo Caesar” (NASCIMENTO, 2007) João Paulo C. do Nascimento menciona Wittgenstein, porém não como referencial central, mas como citação complementar e auxiliar para explicar as ideias de Lyotard, seu referencial teórico. Na Revista OPUS n. 10, o artigo “Ritornelo: composição passo a passo” de Silvio Ferraz (FERRAZ, 2004) apresenta as Investigações Filosóficas de Wittgenstein nas suas referências bibliográficas, evidenciando uma atenção para a questão da linguagem, porém sem citar o filósofo explicitamente no decorrer do texto.

Nos Anais da ABEM, disponíveis na internet, verifica-se a ocorrência de Wittgenstein no texto de minha autoria, intitulado “Linguagem, Música e Educação: na perspectiva de uma pragmática wittgensgteiniana” (MOREIRA, 2010). Nas revistas, até o ano de 2011, também não foram encontradas ocorrências de menções a Wittgenstein.

Encontramos também nos Anais do SEMPEM (Seminário Nacional de Pesquisa em Música – Goiás) o artigo “Música, cultura e linguagem” de Aguiar Werner que menciona Wittgentein, mas o faz na perspectiva do Tractatus em conjunto com outros referênciais: Gadamer, Heráclito e Heidegger (WERNER, 2005).

No campo da Psicologia e Musicoterapia, foram encontrados os artigos “Sujeitos, Música e Narrativa: estudo dos significados e sentidos construídos nas histórias de relação com a música” e “Significados e sentidos construídos nas histórias de relação com a música” de Patrícia Wazlawick, no qual a autora faz uma abordagem dos discursos a partir da ideia dos jogos de linguagem (Wazlawick, 2006a, 2006b) como relatos de pesquisa de sua dissertação de mestrado em psicologia, com o título: “Quando a música entra em ressonância com as emoções: significados e sentidos na narrativa de jovens estudantes de Musicoterapia” (Wazlawick, 2004).

Na dissertação de mestrado de Marcelo Mello, “Reflexões sobre linguística e cognição musical” (MELLO, 2003) há um aprofundado estudo sobre cognição e linguística no qual o nome de Wittgenstein é também citado, porém não como referencial central, mas sim dentre vários outros autores que se aproximam da temática cognição e linguística.

O professor e compositor Willy Correa de Oliveira citava Wittgenstein em suas aulas, sobretudo com relação às questões de “sistemas de referência” na composição e também com relação à questão “o que é arte?”, que estaria no conjunto daquilo que se deveria calar, pela impossibilidade de ser dito, em alusão à conclusão final do Tractatus: “o que não se pode falar, deve-se calar”. Constata-se assim uma abordagem da ética tractiana no campo da música, muito embora, pouco sistematizada em documentos, a não ser na memória de seus alunos, ou em uma pequena parte da dissertação de mestrado de Alexandre Ulbanere (2005), intitulada “Willy Corrêa de Oliveira: por um ouvir materialista histórico”.

Com base no panorama traçado a partir do corpus de publicações as quais se teve acesso, bem como as vivências próprias do pesquisador, pode-se dizer que, no campo da educação musical, esta abordagem wittgensteiniana é a primeira. O que não significa dizer “inovadora”, afinal, a “linguagem sobre música” goza de importantes produções nas mais diversas perspectivas a respeito do discurso sobre música com as quais podemos certamente dialogar, sobretudo, para encontrar o que há de comum entre elas, bem como conhecê-las naquilo em que diferem; ressalto, entretanto, que não há a pretensão de esgotar a literatura já existente. Por outro lado, este livro tem sim a pretensão inicial de suscitar um tema para discussão – um enfoque da música e da educação a partir da perspectiva da pragmática wittgensteiniana, para em outro momento, em outro trabalho, realizar tais diálogos teóricos.

Por se tratar de uma pesquisa não necessariamente inovadora, mas inicial no campo da filosofia analítica em educação musical, mais precisamente no campo da pragmática wittgensteiniana, buscar-se-á fazer uma primeira leitura da educação musical na perspectiva dos jogos de linguagem e também de outros conceitos de Wittgenstein como a ideia de formas de vida e o argumento da impossibilidade de uma linguagem privada. Um dos objetivos indiretos desta pesquisa é também apontar para o fato de que uma abordagem wittgensteiniana da educação musical, no Brasil, ainda carece de maiores aprofundamentos. Porém, mais ainda, mostrar que tal abordagem wittgensteiniana tem elementos de grande importância e implicações para as perspectivas filosóficas, psicológicas, antropológicas, etnográficas, sociológicas e etc. da música e da educação musical. No entanto, para todos os efeitos – sobretudo aos metodológicos – enfatizamos que o presente trabalho se atém a uma abordagem da educação musical.

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FERRAZ, Silvio. Ritornelo: composição passo a passo. in: revista opus n.10 Eletrônica – ISSN 1517-7017. Disponível em http://www.anppom.com.br/opus/opus10/sumario.htm acessado em 1/1/2011. Campinas: ANPPOM, 2004.

MELLO, Marcelo. Reflexões sobre Lingüística e cognição musical. Dissertação de Mestrado; Campinas: UNICAMP, 2003.

NASCIMENTO, João Paulo C. A Condição Pós-Moderna e a obra Sambado, de Rodolfo Caesar. In: ANAIS do XVII Congresso Nacional da ANPPOM. São Paulo: ANPPOM, 2007.

SPOTON, César A. Algumas considerações acerca da especificidade do Discurso Estético (musical). in: XII Encontro Nacional da ANPPOM. Salvador: ANPPOM, 1999.

ULBANERE, Alexandre. Willy Corrêa de Oliveira: por um ouvir materialista histórico. Dissertação de Mestrado. São Paulo: UNESP, Junho/2005.

WAZLAWICK, Patrícia. Sujeitos, música e narrativa: estudo dos significados e sentidos construídos nas histórias de relação com a música Anais da 58ª Reunião Anual da SBPC – Florianópolis, SC – Julho/2006 (disponível em: http://www.sbpcnet.org.br/livro/58ra/senior/RESUMOS/resumo_704.html acessado em 25/11/2011) Florianópolis: SBPC, 2006a.

_____________. Significados e sentidos construídos nas histórias de relação com a música. In: ANAIS do IV FÓRUM DE PESQUISA CIENTÍFICA EM ARTE Curitiba: UFPR, 2006b.

WERNER, Aguiar. Música, Cultura e Linguagem. In: ANAIS do SEMPEM Goiás: UFG, 2005.

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