Notas Musicais: 3 variações sobre a metáfora dos cegos e do elefante


Após um tempo de espera, eis aqui a continuação do percurso que propus nas postagens anteriores com o objetivo de vislumbrar 3 possibilidades de leitura da metáfora dos cegos e do elefante.

Recapitulação: trata-se da continuação das postagens anteriores sobre a alegoria dos cegos e do elefante e sobre ideias de Wittgenstein.

1ª possibilidade – O Elefante Transcendental

Nossa primeira interpretação da alegoria nos leva a concluir que se a metáfora do elefante fosse de fato aplicada, a rigor, ela não escaparia do jugo de si mesma, tendo em vista se tratar também de uma perspectiva particular: uma faceta da realidade ou, melhor dizendo, uma realidade. No entanto, se partirmos do princípio que uma metáfora não deve ser levada ao pé-da-letra – e o que seria, por exemplo, o pé de uma letra? para que seja compreendida em sua intenção, a metáfora do elefante e dos cegos será lida, num primeiro momento, na tentativa de se compreender um querer dizer.

Comumente evocada através desta alegoria dos mestres indianos, a ideia de que as percepções que não conseguem abarcar o “todo” pode ser bastante “didática” como uma forma de se explicar como o conhecimento se dá – isto é, uma epistemologia – e de como as conclusões e inferências são feitas com base em uma experiência restrita de cada indivíduo/grupo que tende a tomar a parte do real como o todo – no exemplo: conceber o elefante como “coqueiro, cano, espanador ou abano”. É importante verificar também, de acordo com esta concepção de “limitação”, que as categorizações apresentadas pelos cegos não são condizentes com as partes constituintes do elefante, isto é, as experiências sensoriais sequer se referiam às “partes” de um elefante, isto é: “coqueiro, cano, espanador ou abano” a despeito de “pata, tromba, rabo ou orelha”. Os “particulares” do elefante foram não somente percebidos mas também nominados de forma distinta, como outras coisas que não se referiam ao “universal” o elefante.

2ª possibilidade – Experimentando o Elefante

Por outro lado, se fosse dada aos cegos a oportunidade de percorrer os arredores do elefante, poderia surgir a possibilidade de haver consenso, porém não seria uma garantia, já que as experiências ainda assim seriam pessoais e intransferíveis. Talvez o problema ganhasse proporções maiores, com mais subsídios para discussão. Dependeria fundamentalmente das intenções de cada um dos cegos. Por mais que aqui resida uma possível chave para a solução do impasse com a tentativa de se colocar um no lugar do outro, ainda assim esta 2ª possibilidade é apenas o desdobramento da 1ª leitura, isto é, pauta-se na ideia de uma essência da qual todos não tem acesso por serem cegos, e que somente outrem possui a possibilidade de contemplar o todo.

As duas leituras acima partem da crença na existência de uma linguagem privada da qual somente alguns iniciados – ou algum ente transcendente – possuem a capacidade de definir o que é o certo ou o errado com relação à realidade e à verdade. A partir do ponto de vista de Wittgenstein de que não é possível a constituição de uma linguagem privada, senão somente jogos de linguagem que são partilhados – por sua vez, públicos em alguma medida – propomos uma outra leitura, perante estes dois modelos hipotéticos que apresentamos. Na metáfora em questão, cada um dos cegos “acreditou” na sua própria verdade imanente como a verdade sobre a realidade, aqui figurada por um elefante. E a partir deste ponto queremos chamar a atenção para o fato de que a ideia de elefante somente é apresentada pelo quinto participante da alegoria, o observador, em última análise, o único que estaria “apto” a confirmar ou não os cegos. A questão que se suscita agora é: quem é este observador?

3ª possibilidade – elefantes não existem

Aventar a possibilidade de existir uma realidade pronta e acabada – um elefante trascendental – portadora de uma ordem com status de verdade da qual não podemos compreender o todo, senão somente as partes, já é em si um argumento contestável, na medida em que – se considerarmos os postulados da fenomenologia – a realidade não apresenta esta ordem conceitual deveras abrangente, “em-si-mesma”, autônoma, comprovável a não ser na relação com outrem (JOVCHELOVITCH, SCHAEFFER, MERLEAU-PONTY). Partindo deste pressuposto, não haveria portanto um mundo das ideias do qual se possa “conhecer sem conhecer” ou sustentar a existência de um plano superior que não nos damos conta – devido a uma suposta cegueira – ou que, noutra perspectiva, somente alguns (se) dão conta – uns “iniciados”. A crença num plano transcendente, metafísico, seria, no âmbito da retórica clássica, uma petição de princípio. Isto é, seria crer que esta premissa – de uma ordem invisível – é compartilhada pelos interlocutores e acreditar que o interlocutor deva tomá-la também como verdade. Não parte portanto de fatos, mas de uma verdade, uma fundação.

Até aqui, temos reunido elementos em torno da alegoria do elefante e dos 4 cegos que tentam desvendar, cada um à sua maneira, com suas táticas argumentativas e petições de princípio o que vem a ser o objeto por eles apalpado. Dizíamos no início que a metáfora do elefante invisível pelos cegos poderia dar a impressão de que, na realidade, existe uma verdade a qual nenhum dos cegos – e portanto, correlacionando, nenhum de nós – tem acesso, porém, uma realidade que se apresenta com uma ordem que transcende a nossa compreensão. Isto é, o elefante (realidade transcendental) é compreendido como coqueiro, espanador, cano com orifícios e abano. Para os cegos, o universal é reduzido aos seus particulares. Por outro lado, para o “observador” os particulares são reduzidos ao universal “elefante” e as experiências concretas dos “cegos” são desmentidas por este alguém que possui a “capacidade” de dizer que os demais estão errados.

Na metáfora somos os cegos, quem seria este observador “superior” nos sentidos e na faculdade de julgar? A experiência musical pode ser tratada também na perspectiva aplicada à metáfora do elefante e assim teríamos “pano pra manga” para discutir sobre isto que “chamamos” de música. Mas este assunto trataremos nos posts seguintes.

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